Juros são principal entrave para acessar crédito, apontam indústrias
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou uma pesquisa que aponta os juros altos como o principal entrave para o acesso ao crédito pelas indústrias brasileiras. O cenário de taxa Selic elevada e spread bancário alto dificulta o investimento e a modernização do parque fabril.
O levantamento "Sondagem Especial: Crédito" ouviu empresários de todo o país e revelou que a insatisfação com as condições de financiamento é generalizada. Para a maioria dos entrevistados, o custo do crédito é o maior desafio para tocar novos projetos e manter a competitividade.
A pesquisa da CNI sobre crédito industrial
A sondagem, realizada entre os dias 3 e 14 de julho, consultou 1.531 empresas de pequeno, médio e grande porte. O resultado não deixa margem para dúvidas: o custo do capital é um dos principais gargalos para o crescimento da indústria nacional. Cerca de 68% dos empresários apontaram os juros como o principal obstáculo.
Outros fatores mencionados foram a burocracia para a contratação de crédito, as exigências de garantias e o prazo de pagamento considerado curto. A combinação desses fatores faz com que muitos projetos de investimento sejam adiados ou cancelados.
Selic e spread bancário: os vilões do crédito
A taxa básica de juros (Selic) influencia diretamente o custo final do crédito. Quando a Selic está alta, os bancos repassam esse custo para as empresas e consumidores. O spread bancário brasileiro, que é a diferença entre a taxa de captação dos bancos e a taxa cobrada dos tomadores, está entre os maiores do mundo.
Isso torna o capital de giro e os financiamentos de longo prazo proibitivos para muitos projetos industriais. "O custo do dinheiro no Brasil é um dos maiores do planeta. Isso inviabiliza qualquer empreendimento que não tenha um retorno muito rápido e seguro", afirmou um empresário do setor metalmecânico ouvido pela pesquisa.
Impacto na competitividade da indústria
A dificuldade de acesso ao crédito com taxas razoáveis afeta diretamente a competitividade da indústria brasileira no cenário global. Sem capacidade de financiar a modernização de máquinas e equipamentos, a adoção de novas tecnologias e a pesquisa e desenvolvimento (P&D), as empresas perdem terreno para concorrentes internacionais que operam em ambientes de juros mais baixos e linhas de crédito mais acessíveis.
Empresários relatam que, em muitos casos, projetam investimentos necessários, mas recuam ao calcular o custo efetivo total (CET) do financiamento. Acabam adiando a expansão e focando apenas na manutenção do que já têm, o que compromete a inovação e a produtividade a longo prazo.
Reivindicações do setor produtivo
Diante desse cenário, o setor industrial tem intensificado o diálogo com o governo e o Congresso Nacional em busca de soluções. Entre as principais reivindicações estão uma política de juros mais previsível e alinhada ao controle da inflação sem sacrificar o crescimento, linhas de crédito específicas para investimento produtivo com taxas subsidiadas, e a redução do spread bancário por meio de medidas que estimulem a concorrência e a eficiência do sistema financeiro.
A simplificação tributária e a melhora do ambiente de negócios também são vistas como fundamentais para reduzir os prêmios de risco cobrados pelos bancos.
Perspectivas para o crédito industrial
A pesquisa da CNI serve como um sinal de alerta para as autoridades econômicas. Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de flexibilização monetária, a velocidade e a intensidade dos cortes na Selic são monitoradas de perto. As indústrias esperam que a redução dos juros chegue de fato às linhas de crédito, destravando investimentos que estão represados.
A expectativa é que, com um ambiente macroeconômico mais favorável, o crédito volte a fluir, impulsionando a recuperação da atividade industrial e do emprego no país. O acesso ao crédito é fundamental para o desenvolvimento industrial, e a pesquisa da CNI serve como um alerta para a necessidade de políticas públicas que promovam um sistema financeiro mais eficiente e acessível ao produtor brasileiro.
Com a recente queda da Selic, o setor espera que haja uma melhora gradual nas condições de crédito. No entanto, a recuperação plena depende de um ambiente macroeconômico estável e de reformas estruturais que reduzam o custo Brasil e incentivem o investimento produtivo.