Mais de 4 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco, alerta CPRM

Um levantamento do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) revela que mais de 4,2 milhões de pessoas residem em setores classificados como de alto risco geológico, sujeitos a deslizamentos, enxurradas e inundações. Os dados, atualizados em 2024, abrangem 1.242 municípios em todas as regiões do país.

O mapeamento da CPRM

O CPRM realiza, desde 2012, o mapeamento de áreas de risco em parceria com a Defesa Civil nacional. O levantamento mais recente, concluído em 2023, identificou 8.536 setores de risco, dos quais 45% foram classificados como de risco muito alto. Os critérios incluem histórico de deslizamentos, enchentes, declividade do terreno e tipo de ocupação do solo.

Segundo o órgão, os setores de risco são áreas onde há moradias expostas a perigos geológicos. O mapeamento permite que prefeituras elaborem planos de contingência e priorizem intervenções. "Sem esse diagnóstico, fica impossível agir preventivamente", afirma o geólogo Marcelo Esteves, coordenador do projeto.

Regiões mais críticas

A região Sudeste concentra 52% dos setores de risco, com destaque para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Na serra fluminense, cidades como Petrópolis e Teresópolis apresentam alta incidência de deslizamentos. O Nordeste aparece em segundo lugar, com 28%, principalmente pela ocupação de encostas em Salvador e Recife, além de áreas sujeitas a enchentes no Maranhão e Piauí.

Os dados mostram que a situação é igualmente grave no Sul, onde as enxurradas e ciclones extratropicais ameaçam milhares de famílias. Em Santa Catarina, por exemplo, 12% da população em áreas de risco está em setores mapeados como de risco muito alto.

Por que o número não para de crescer?

Especialistas apontam que a combinação de ocupação desordenada do solo, falta de fiscalização e eventos climáticos extremos contribui para o aumento da população exposta. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que os desastres naturais no Brasil cresceram 30% na última década.

A urbanização acelerada, especialmente nas periferias das grandes cidades, força famílias a construírem em áreas de risco. "A ausência de planejamento urbano é a principal causa. Enquanto não houver política habitacional séria, os números continuarão subindo", avalia a urbanista Ana Cláudia Rodrigues.

Medidas necessárias

A CPRM recomenda que os municípios elaborem planos de contingência e realoquem moradores de áreas de risco muito alto. O governo federal, por meio do Ministério do Desenvolvimento Regional, anunciou em 2024 um investimento de R$ 500 milhões em obras de contenção e drenagem. No entanto, especialistas criticam a lentidão das obras e a falta de integração entre políticas habitacionais e de gestão de risco.

Para o diretor de Geologia da CPRM, a prevenção ainda é o melhor caminho: "Cada real investido em mapeamento e prevenção economiza dez reais em reconstrução".

O que diz a Defesa Civil

A Defesa Civil nacional informou que mantém convênios com 800 municípios para ações de redução de desastres. Durante o período chuvoso, equipes são destacadas para monitorar as áreas mais sensíveis. A orientação para a população é ficar atenta aos alertas meteorológicos e acionar a Defesa Civil em caso de suspeita de deslizamento ou inundação.

Moradores de áreas de risco podem solicitar vistoria técnica gratuita por meio do aplicativo da Defesa Civil ou pelo telefone 199.

Em relação às mudanças climáticas, o aumento da frequência de eventos extremos, como chuvas intensas e secas prolongadas, agrava a vulnerabilidade. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta que, até 2050, o número de pessoas expostas a riscos naturais pode dobrar no Brasil. A necessidade de adaptação é urgente.

A CPRM também desenvolve sistemas de alerta hidrológico em bacias críticas, como as dos rios Paraíba do Sul, Doce e São Francisco. Esses sistemas emitem avisos com até 72 horas de antecedência, permitindo a evacuação de áreas ameaçadas.

O mapeamento completo da CPRM está disponível no site do Serviço Geológico do Brasil. A expectativa é que novos estudos sejam publicados em 2025, ampliando a cobertura para mais de 1.500 municípios.

Com informações da CPRM e Agência Brasil.