Brasil tem 822 mil estupros por ano ou dois por minuto, estima Ipea

Por Redação O Tabloide Leitura: 3 min

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo que expõe a grave realidade da violência sexual no Brasil. Segundo a pesquisa, o país registra cerca de 822 mil casos de estupro a cada ano – o equivalente a dois estupros por minuto. Os números, baseados em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde, indicam que a subnotificação ainda é um problema significativo, ou seja, os casos reais podem ser ainda maiores.

O levantamento utilizou registros de 2022 e 2023 e revela que a violência sexual atinge desproporcionalmente mulheres e meninas: 88% das vítimas são do sexo feminino. Cerca de 60% dos casos envolvem crianças e adolescentes com menos de 13 anos. A maioria dos agressores é conhecida da vítima, o que reforça o caráter doméstico e relacional da violência.

A análise também aponta diferenças regionais preocupantes. As regiões Norte e Nordeste apresentam as maiores taxas de estupro por 100 mil habitantes, superando a média nacional. No Norte, a taxa chega a 75 casos por 100 mil, enquanto no Sudeste fica em torno de 35. Os pesquisadores destacam que fatores como pobreza, baixa escolaridade e deficiência na rede de proteção contribuem para esses índices.

O estudo do Ipea vai além dos números absolutos e investiga as circunstâncias dos crimes. Em mais de 70% das ocorrências, o estupro acontece dentro da residência da vítima ou do agressor. Em 75% dos casos, o agressor é familiar, parceiro ou conhecido próximo. Esses dados reforçam a tese de que a violência sexual é, em grande parte, um crime de oportunidade e intimidade, e não um ato aleatório praticado por estranhos.

A pesquisa também chama atenção para a faixa etária mais vulnerável: crianças de 5 a 14 anos representam quase metade dos registros. Muitas dessas vítimas são meninas que engravidam em decorrência da violência – o Brasil registra cerca de 20 mil casos de gravidez infantil (menores de 14 anos) por ano, a maioria associada a estupros intrafamiliares.

Especialistas ouvidos pelo Tabloide reforçam a necessidade de políticas públicas integradas. “Os dados do Ipea são um alerta para a urgência de campanhas educativas, fortalecimento dos conselhos tutelares e delegacias especializadas, além de penas mais rigorosas para os agressores”, afirma a socióloga Marina Andrade, pesquisadora da Universidade de Brasília. Ela destaca que a subnotociação ainda é alta: estima-se que apenas 35% dos casos cheguem às autoridades.

O governo federal já anunciou a ampliação do programa Casa da Mulher Brasileira e a criação de centros de referência no Norte e Nordeste. No entanto, especialistas consideram as medidas insuficientes diante da magnitude do problema. “Não adianta apenas punir; é preciso prevenir com educação sexual nas escolas, atendimento psicológico às vítimas e campanhas que desnaturalizem a violência”, completa a advogada Carla Dias, especialista em direitos das mulheres.

O estudo do Ipea também traz recomendações específicas: melhorar a notificação compulsória nos serviços de saúde, integrar as bases de dados entre segurança pública e saúde, e investir em pesquisas periódicas para monitorar a evolução dos indicadores. A transparência dos dados é apontada como ferramenta essencial para o desenho de políticas eficazes.

Para a população em geral, os números de 822 mil estupros por ano representam uma média de 68,5 mil casos por mês, 2,2 mil por dia, ou dois a cada minuto. A estatística coloca o Brasil entre os países com maiores índices de violência sexual do mundo, superando até mesmo zonas de conflito armado. “É uma tragédia silenciosa que precisa sair das estatísticas e ganhar visibilidade no debate público”, conclui o relatório do Ipea.

A íntegra do estudo pode ser acessada no site do Ipea. O Tabloide continuará acompanhando as repercussões e cobrando ações concretas das autoridades.